A transformação digital dos órgãos governamentais brasileiros avança em ritmo acelerado. Conforme levantamento realizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e seu departamento Cetic.br, a tecnologia de Inteligência Artificial já está incorporada em 59% das instituições públicas federais e estaduais do país. A pesquisa TIC Governo 2025 mapeou dados coletados entre julho de 2025 e abril de 2026, envolvendo 576 órgãos públicos e 3.253 prefeituras em todo o território nacional.
A adoção da IA varia significativamente entre os poderes constitucionais. O Poder Judiciário lidera isoladamente essa transformação tecnológica, com 94% de seus órgãos utilizando a ferramenta. O Ministério Público acompanha com 92%, enquanto o Poder Legislativo apresenta taxa de 83%. O Poder Executivo, por sua vez, registra 55% de penetração da tecnologia. Na comparação entre esferas administrativas, a União destaca-se com 70% de seus órgãos adotando IA, enquanto na esfera estadual o índice alcança 58%.
Três aplicações principais dominam o uso da IA nas instituições públicas brasileiras. A automatização de fluxos de trabalho é utilizada por 39% dos órgãos, com destaque para 45% na esfera federal. A mineração de texto e análise de linguagem aparece em 35% das instituições, atingindo 46% no nível federal. A aprendizagem de máquina para predição e análise de dados está presente em 31% dos órgãos públicos, com maior incidência nos órgãos federais (39%). Outras tecnologias emergentes ficam atrás: Blockchain alcança apenas 25% no nível federal e 17% no estadual, enquanto Internet das Coisas (IoT) está em 20% federal e 29% estadual.
O cenário nas administrações municipais revela disparidades acentuadas. Apenas 27% das prefeituras utilizaram IA no último ano, mas esse percentual varia drasticamente conforme o tamanho do município. Cidades com mais de 500 mil habitantes apresentam 85% de adoção, e capitais atingem 81%. Em contraste, municípios com até 10 mil habitantes registram apenas 22% de utilização. Nas prefeituras, as aplicações concentram-se na automação de processos (14%) e mineração de texto (12%), com foco na melhoria de serviços ao cidadão (17%) e aprimoramento de rotinas administrativas (17%).
A capacitação técnica emerge como principal barreira para expansão da IA no setor público. Esse desafio foi relatado por 40% das prefeituras, 21% dos órgãos estaduais e 19% dos federais. Nas administrações municipais, outros obstáculos incluem falta de prioridade governamental (36%), ausência de necessidade ou interesse (35%), qualidade inadequada dos dados disponíveis (35%) e custos elevados (34%). Para superar essas limitações, 59% dos órgãos federais oferecem treinamento aos servidores, 46% contrataram ferramentas especializadas e 43% estabeleceram manuais e diretrizes de uso. No âmbito da IA generativa, 65% dos órgãos federais desenvolvem iniciativas para processos internos, enquanto 29% aplicam a tecnologia em serviços diretos ao cidadão.
O estudo também documenta a consolidação de aplicativos de mensagem instantânea como canais de atendimento. Nas prefeituras, o uso de WhatsApp e Telegram para prestação de serviços cresceu de 56% em 2023 para 64% em 2025, posicionando-se como segundo canal mais utilizado, atrás apenas do telefone fixo (83%). Nos governos estadual e federal, 43% e 39% dos órgãos, respectivamente, utilizam mensagens institucionais para comunicação com cidadãos.