O Espaço Namata, localizado em São José dos Pinhais na Região Metropolitana de Curitiba, celebrou seu décimo aniversário no último sábado (17 de outubro de 2026) com um encontro que reuniu gastronomia amazônica, sustentabilidade e discussões sobre conservação ambiental. O evento trouxe especialistas e ofereceu uma experiência imersiva que conectou participantes do Sul do país com a realidade da floresta amazônica através de ingredientes, histórias e conhecimento.
Desde sua fundação, o Namata carrega um compromisso ambiental: nenhuma árvore foi derrubada para que o projeto pudesse ser construído. Esse foi o compromisso feito pela arquiteta e proprietária Liliane Robacher ao seu pai, promessa que orientou toda a construção do espaço e consolidou sua identidade. O diferencial do local vai além da preservação: oferece gastronomia saudável para eventos sociais e corporativos, com forte conexão com a trajetória de seus fundadores, Fernando Allegretti e Liliane Robacher, que anteriormente residiam em Nova York e posteriormente passaram anos atuando na Amazônia com projetos de sustentabilidade e aproximação entre comunidades e empresas.
O encontro no sábado, intitulado “Amazônia Linda e Próspera: como fazer desse futuro uma realidade”, contou com participações de destaque do pesquisador Beto Veríssimo, da antropóloga Mary Allegretti e do ambientalista Luiz Villares, que lançou seu livro Ecos do Antropoceno. Os especialistas abordaram a relação entre conservação, economia e qualidade de vida, enfatizando a importância de reconhecer e apoiar as comunidades que vivem na floresta. A programação foi estruturada para apresentar ao público a Amazônia não como um espaço intocado, mas como um território de presença humana, conhecimento ancestral e transformação que atravessa milênios.
O menu servido no almoço foi concebido em conjunto pelos proprietários, o cozinheiro Marco Antonio Barros (natural de Manaus) e o chef, jornalista e escritor Roberto Smeraldi, fundador da ArteSã. O percurso gastronômico incluiu dadinhos de tapioca com geleia de cupuaçu, rolls de banana-da-terra com pirarucu selvagem defumado, vol-au-vent com tomate confitado e queijo meia-cura, tucupi preto Wapixana, croquetas de cogumelos com aioli de tucupi, salada de folhas com castanhas-do-brasil e queijo coalho, pato no tucupi com arroz branco, tambaqui selvagem assado na parrilla com arroz amazônico, moqueca vegana de banana-da-terra e palmito com arroz de coco, além de sobremesa com cacau, coco, creme de cupuaçu e crumble de castanha. A procedência dos ingredientes reforçou a proposta: pirarucu selvagem manejado por comunidades ribeirinhas foi fornecido pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC), enquanto o tucupi preto proveio da comunidade indígena Wapixana, em Roraima.
Durante o debate, Veríssimo apresentou reflexões sobre a imagem de paraíso frequentemente associada às florestas tropicais, ressaltando que por trás da paisagem exuberante existe história de presença humana e conhecimento territorial que atravessa milênios. O pesquisador destacou as terras pretas, solos enriquecidos pela ação de antigos habitantes, como evidência dessa trajetória e questionamento da ideia de uma Amazônia intocada. A discussão alcançou aspectos econômicos pouco visíveis: a circulação de umidade da floresta influencia o regime de chuvas que afeta lavouras, reservatórios e geração de energia em regiões a milhares de quilômetros. Veríssimo utilizou a metáfora de uma floresta com “febre” para alertar sobre os riscos da combinação entre desmatamento e aquecimento global, ressaltando que a perda de vegetação compromete a capacidade da floresta de manter suas próprias condições e amplia preocupações com secas, escassez de água e prejuízos econômicos.