O Núcleo de Londrina do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), vinculado ao Ministério Público do Paraná, executou na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, um total de 17 mandados de busca e apreensão. A ação integra a Operação Samaritano, que investiga o possível deslocamento irregular de valores destinados a instituições de assistência social, arrecadados por meio da comercialização de títulos de capitalização, seguido de operações de ocultação de origem de recursos.
Os mandados foram expedidos pela 3ª Vara Criminal de Londrina, localizada no Norte Central paranaense, e cumpridos simultaneamente em múltiplas localidades. No estado do Paraná, as ações ocorreram em Londrina, Ibiporã e Maringá. Já em São Paulo, os procedimentos se desenvolveram na capital e em Itupeva. As investigações tiveram suas raízes em 2021 e apontam para apropriações supostamente realizadas por uma distribuidora de títulos de capitalização com base em Londrina, articulada com empresas coligadas a ela.
Conforme as apurações, a distribuidora em questão estaria retendo parcelas dos valores que, de acordo com regulamentação da Superintendência de Seguros Privados (Susep), deveriam ser integralmente encaminhados às entidades beneficiárias. Os possíveis prejudicados incluem a Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), a Irmandade Santa Casa de Londrina e o Hospital do Câncer de Londrina. O prejuízo preliminamente estimado alcança R$ 36.913.661,48.
A operação revelou mecanismos sofisticados de fraude. Até 2019, os títulos filantrópicos eram comercializados em campanhas beneficiando a Fenapaes, com a distribuidora centralizando toda arrecadação. A investigação aponta que despesas eram artificialmente ampliadas mediante notas fiscais sem suporte, duplicadas ou referentes a serviços prestados a outras empresas dos indivíduos investigados. Parte dessas notas era emitida por empresas de fachada constituídas sob nomes de funcionários e distribuidores, visando incrementar ilicitamente o lucro da distribuidora. A partir de 2020, quando a regulação foi alterada, os investigados teriam adaptado o esquema mediante alegados contratos de promoção de vendas, supostamente celebrados sem observância aos requisitos legais e à supervisão apropriada da entidade de capitalização.
Entre março de 2020 e maio de 2022, a Santa Casa de Londrina transferiu R$ 33,16 milhões à distribuidora. Entre julho de 2020 e abril de 2021, o Hospital do Câncer de Londrina repassou R$ 3,75 milhões, com evidências documentais indicando continuidade da prática junto a empresas sucessoras até 2024. Os valores investigados supostamente percorriam múltiplas etapas para mascarar sua procedência, envolvendo empresas constituídas em nome de familiares dos sócios da distribuidora destinadas à aquisição de imóveis e veículos de alto padrão. A investigação avalia possíveis crimes de apropriação indébita, estelionato contra entidades filantrópicas, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. O tribunal determinou sequestro patrimonial e bloqueio de valores até o limite de R$ 36.913.661,48. O Ministério Público ressalta que a comercialização de títulos de capitalização na modalidade filantrópica constitui atividade lícita, regulamentada pela Susep, e que as entidades beneficentes são enquadradas como vítimas dos supostos delitos. O processo tramita sob sigilo judicial.