Pesquisadores da Universidade de São Paulo indicam que a saúde cerebral não é uma preocupação exclusiva da terceira idade, mas resultado de escolhas e hábitos acumulados ao longo de toda a vida. Segundo estudos recentes, o processo de envelhecimento cerebral é contínuo e sofre influência direta das condições de saúde, ambiente, oportunidades e experiências vivenciadas desde a juventude.
A gerontóloga Thais Bento Lima da Silva, pesquisadora da USP, destaca que indivíduos da mesma idade podem apresentar condições completamente diferentes de saúde e desempenho cognitivo. Isso ocorre porque cognição não se resume apenas à memória, mas abrange atenção, linguagem, raciocínio lógico, planejamento e capacidade de tomada de decisão — habilidades fundamentais para a realização de atividades do dia a dia e manutenção da autonomia.
O conceito de reserva cognitiva explica por que cérebros envelhecem de formas distintas. Pesquisas acompanharam freiras durante décadas e observaram mulheres que chegaram aos 90 e 100 anos mantendo bom desempenho mental, apesar de mudanças cerebrais associadas ao Alzheimer. O diferencial estava em suas rotinas, que incluíam atividades intelectualmente desafiadoras, participação social ativa e voluntariado. A reserva cognitiva funciona como a capacidade do cérebro de utilizar diferentes estratégias e recursos para enfrentar mudanças e adversidades.
Levantamento realizado pela Comissão The Lancet em 2024 identificou 14 fatores potencialmente modificáveis que influenciam o risco de demência, incluindo escolaridade, perda auditiva, hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo, isolamento social, colesterol LDL elevado, perda visual não tratada e poluição do ar. A análise estimou que aproximadamente 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou postergados em nível populacional caso esses fatores fossem evitados ou controlados adequadamente.
Contudo, especialistas alertam para não criar falsas expectativas sobre o assunto. A relação entre saúde cardiovascular e desempenho cognitivo é bem estabelecida pela ciência, razão pela qual recomendações atuais enfatizam controle de pressão arterial, gerenciamento do diabetes, prática regular de atividade física, alimentação balanceada, abandono do tabagismo e moderação no consumo de álcool como medidas essenciais para reduzir riscos de declínio cognitivo ao envelhecer.