O reconhecimento antecipado de sinais de alerta é fundamental para aumentar as possibilidades de recuperação de crianças e adolescentes com câncer. Durante o mês de conscientização Setembro Dourado, a coordenadora médica do Centro de Oncologia Infantojuvenil do Hospital da Criança de Maringá (HCM), oncologista e hematologista pediátrica Alessandra Borges, destaca que quando identificado nos estágios iniciais e tratado em instituições especializadas, o câncer infantojuvenil apresenta mais de 70% de possibilidade de cura.
O Ministério da Saúde estabeleceu como eixo orientador da campanha 2026 a mensagem “O câncer infantojuvenil tem desafios, mas também tem cura: fique atento aos sinais”. Essa iniciativa reforça a necessidade de informação e vigilância constante aos indícios da doença, permitindo que intervenções ocorram no momento apropriado. Segundo a especialista, a identificação antecipada viabiliza o início ágil do tratamento correto, reduz complicações derivadas da progressão da enfermidade e, em determinadas situações, possibilita abordagens terapêuticas menos agressivas.
Diferentes de tumores malignos em adultos, o câncer pediátrico raramente está conectado a hábitos cotidianos ou exposições ambientais, conforme aponta a oncologista. Por essa razão, reconhecer os sinais de alerta constitui uma das principais estratégias de enfrentamento. Os indicadores que merecem investigação incluem: palidez contínua, exaustão desproporcional ou debilidade, febre persistente sem causa aparente, emagrecimento não justificado, dores persistentes nos ossos ou articulações, caroços ou aumento de estruturas linfoides, dilatação abdominal ou presença de massas, sangramento ou hematomas sem motivo esclarecido, cefaleia persistente acompanhada de êmese, modificações na visão ou no comportamento, alterações motoras como falta de equilíbrio, crises convulsivas ou perda de força, e alterações oftalmológicas como reflexo branquicento na pupila ou desvio ocular recente.
É importante ressaltar que a presença desses sintomas não indica obrigatoriamente oncologia pediátrica. Frequentemente, relacionam-se a patologias benignas habituais na idade pediátrica. O que deve intensificar a atenção é a combinação de permanência dos sintomas, piora progressiva, falta de justificativa plausível e desvio do padrão comportamental ou fisiológico característico de cada criança. A especialista reforça que não se trata de diagnosticar câncer, mas de reconhecer quando algo se desvia da trajetória esperada do desenvolvimento infantil.
O setor de Oncologia do HCM marcou um ano de funcionamento em agosto, com resultados expressivos que demonstram a relevância de estruturas especializadas para atender menores com suspeita ou confirmação de malignidade. Desde o início das operações, a equipe investigou mais de 70 crianças, resultando em 40 confirmações diagnósticas. No mesmo período, foram executadas 700 sessões quimioterápicas, aproximadamente 650 consultas ambulatoriais e 290 internações. Adicionalmente, oito pacientes foram transferidos de volta para Maringá, possibilitando sequência do tratamento próximo às famílias e redes de suporte.
A dificuldade em detectar precocemente a doença reside no fato de que manifestações iniciais frequentemente se assemelham a quadros comuns na infância. Certos tumores possuem baixa prevalência, levando profissionais de saúde a considerar alternativas diagnósticas inicialmente. A demora em obter consultas, realizar exames, encaminhar pacientes ou avaliar em centros de referência também contribui para diagnóstico tardio. Por isso, é necessário investir tanto na educação populacional quanto na capacitação permanente de profissionais da atenção básica e serviços de emergência. A especialista ressalta que Setembro Dourado representa oportunidade de expandir conhecimento sem gerar ansiedade desnecessária nos responsáveis, pois a maioria das manifestações pediátricas não corresponde a câncer, porém quando algo persiste, agrava-se ou apresenta desvio do padrão individual, não deve ser simplesmente ignorado. A percepção dos pais merece atenção especial: quando reconhecem que seu filho não apresenta o comportamento ou saúde habituais, essa observação possui valor clínico significativo e deve ser avaliada criteriosamente.