Fiocruz aponta crescimento do tabagismo entre adolescentes por influência de redes sociais

Fiocruz aponta crescimento do tabagismo entre adolescentes por influência de redes sociais

A Fundação Oswaldo Cruz divulgou um alerta sobre o aumento preocupante do tabagismo no Brasil, revertendo três décadas de progressos conquistados pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo. Embora os cigarros eletrônicos estejam proibidos no país desde 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), esses dispositivos têm se proliferado entre a população jovem, especialmente através das plataformas digitais.

Uma análise técnica realizada pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), vinculado à Fiocruz, revelou um cenário preocupante nos números: entre 2023 e 2024, o percentual de adultos fumantes passou de 9,3% para 11,6%. Os dados evidenciam uma inversão da tendência histórica de redução do tabagismo no Brasil, trazendo novos desafios para as políticas públicas de saúde na região.

O estudo aponta que adolescentes e jovens adultos são os principais afetados por essa tendência. Aproximadamente 70% dos usuários de vapes no Brasil têm entre 15 e 24 anos de idade. Esses dispositivos não apenas criam dependência química, como também estão associados à Evali, uma doença pulmonar grave caracterizada por lesões sérias nos pulmões dos usuários. A situação representa um desafio significativo para a saúde pública nacional.

As redes sociais, particularmente o YouTube, desempenham papel central na disseminação de conteúdos que estimulam o consumo desses produtos. Pesquisadores mapearam cinco canais na plataforma que acumularam mais de 6 milhões de visualizações e reuniram 400 mil inscritos. Esses espaços promovem vapes através de tutoriais, avaliações de modelos, cupons promocionais, links diretos para compra e entrevistas com defensores dessa prática. Os algoritmos da própria plataforma frequentemente recomendam esses vídeos para usuários interessados no tema, amplificando ainda mais o alcance dessa publicidade informal.

Os pesquisadores constataram que o YouTube mantém uma autorregulação frágil e ignora marcos legais brasileiros como o Código de Defesa do Consumidor, a Lei Antifumo e a Lei de Proteção de Dados. A plataforma não inclui em suas políticas comerciais a proibição de publicidade de derivados do tabaco, e aplica sinalizações de conteúdo restrito apenas pontualmente. A nota técnica recomenda um acordo de cooperação entre o YouTube, governo e influenciadores para distribuir materiais informativos gratuitos sobre os riscos dos vapes. Além disso, solicita que provedores de internet atuem com transparência sobre suas estratégias de moderação, recomendação e monetização de conteúdos relacionados ao tabaco, protegendo crianças e adolescentes da iniciação precoce no tabagismo.

O impacto econômico dessa situação também é expressivo. Atualmente, o tratamento das doenças relacionadas ao tabagismo consome R$ 153 bilhões por ano dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse montante evidencia a urgência em implementar ações preventivas e regulatórias que protejam especialmente os jovens da exposição excessiva a conteúdos promocionais de produtos prejudiciais à saúde.

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